Infância

Decisão

Muitas de nós começam a usar produtos químicos ainda na infância. E essa é uma questão bastante delicada porque neste caso não estamos falando necessariamente de uma questão de escolha.

Algumas crianças podem querer usar química, justamente por já estarem construindo a sua identidade a partir de um padrão de beleza que é socialmente aceito, porque já sofreram com piadas dos coleguinhas da escola ou de outros círculos sociais em que já estão inseridos.

Porém, há casos em que é por vontade dos responsáveis pela criança que a química passa a ser aplicada. As justificativas podem ser diversas. E vão desde a necessidade de facilitar os cuidados com o cabelo, até a tentativa de evitar que ela sofra qualquer preconceito por ser muito cacheada ou crespa.

Para as mamães e papais de hoje talvez seja mais fácil ter clareza que os cabelos crespos e cacheados das suas filhas e filhos não são algo ruim, que devem sentir vergonha e sejam obrigados a disfarçar. Ainda assim precisamos avançar bastante.

A questão é que por muito tempo essas ideias foram reproduzidas e muitas de nós, crespas e cacheadas, passamos por este processo de construção de uma identidade que não tinha realmente a ver conosco.

Por esse mesmo motivo, tendemos a transmitir esse padrão de normalização para os nossas filhas e filhos, para irmãs e irmãos, primas e primos mais novos.

A infância é um período de extrema importância, como qualquer outra etapa que faça parte do desenvolvimento humano. Tanto é que a estruturação da personalidade de uma pessoa irá depender da infância que ela teve.

Se em algum momento a identidade da criança é colocada em xeque, ou passa por alguma modificação, forçada ou não, para que seja aceita pelos demais, essa criança pode gerar traumas e/ou complexos que trarão consequências para a sua vida adulta.

Conversando com algumas amigas, descobrimos que várias delas começaram a alisar ou fazer relaxamento no cabelo ainda pequenas. Os contextos diversificados, mas apresentam algumas semelhanças entre si.

 

A professora Thaís S. nos contou que surgiu na infância e na adolescência o desejo de fugir de sua verdadeira identidade:

“Quando criança e adolescente odiava o meu cabelo, o meu quadril largo, meu nariz achatado, enfim todas as características do meu pai, que é negro. Eu queria me parecer com a família branca da minha mãe. Quando alisei meu cabelo, me achei menos feia, mas sabia que todos sabiam que eu não era ‘naturalmente lisa’. Eu continuava sendo feia e estranha. Era tudo o que eu não queria ser”.

 

A estudante de Relações Internacionais Adriana R. nos disse que sofria muito na escola por ter os cabelos cacheados. As suas colegas de classe, todas com os cabelos lisos, riam dela sempre e a chamavam de “cabelo de esponja”. Ela vivia com os cachos presos por sentir muita vergonha.

Já a mestranda em ciências sociais e pedagoga Evy O., que chegou a usar a química já na infância, contou que isso não foi necessariamente uma opção sua.

Embora a sua mãe sempre tenha ensinado que ela deveria amar todas as características relacionadas a sua etnia negra, foi pela vontade materna que passou pela primeira vez por um relaxamento no início da segunda infância:

“Eu usei química pela primeira vez com sete anos […] eu queria usar muito os cabelos soltos e minha mãe dizia que era para soltar os cachinhos, só que a bendita química alisou o meu cabelo […] ficou parecendo, tipo, chapinha. Eu fiquei com muita raiva, porque a minha mãe falava que estava feio e que eu não podia usar do jeito que queria, então um tempo depois eu fiz um permanente e tal. E aí vem aquela questão do cacho perfeito e assim foi indo durante toda a minha vida”.

 

A Thammy F., que já sofreu preconceitos diversos no ambiente familiar, também começou cedo o uso de produtos químicos para “amenizar” a estrutura crespa do cabelo. Na pré-adolescência ela aderiu ao alisamento:

“Eu usava química no meu cabelo desde os 07 anos mais ou menos, usava relaxamento, por volta dos 12 anos passei a usar progressiva. O que me motivou a parar foi quando veio a famosa crise de identidade.

A crise de identidade da Thammy veio na fase adulta. Assim como para a maioria das pessoas que passam por esse processo. O relato dela e os demais deixam claro o quanto não aceitar o cabelo natural é algo que perpassa diferentes etapas da vida.

Mas pensando pelo lado positivo, ao decidir deixar a química de lado e se assumir, você pode se tornar referência para as gerações futuras, que de maneira nenhuma precisam passar pelos mesmos percalços que nós passamos.
Pense nisso com carinho.